segunda-feira, dezembro 05, 2005

Johnny Beef - le context, il est vrai, était favorable!

Quando estive pela primeira vez em Acapulco foi-me apresentado no café ZÁS. Judite foi a responsável. Judite acabara a sua dissertação de doutoramento sobre o papel dos bares na construção de tipos sem escrúpulos. Dito de maneira científica: A (re) construção das dinâmicas identitárias em espaços públicos e a sua relação com o perfil do homicida no inicio do século XV. Beef chama-lhe os traços com copos para uma cartografia da matança nas ruas de Acapulco. Conhecera-o numa entrevista de campo. Como ainda tinha seis horas até ao regresso resolvi ligar a uma velha amiga. Judite gostava de trabalhar no campo mas decidiu tirar Psicologia Criminal. Sempre pontual, seguimos o caminho normal que vai dar ao sítio onde todos se encontram antes de partirem rumo às histórias da noite. Fizera com ele um conjunto de segredos. Foi o seu informante privilegiado. Como as seguia, como planeava o detalhe, como nunca se disfarçou de nada ou de ninguém. E claro, como aprendeu quase tudo em conversas alagadas de bares, noites dentro do ZÁS. Beef estudou harpa durante sete anos no Conservatório Nacional. Teve sempre dificuldades com os sustenidos. Foi por eles que fez alguns cortes na cara. Alguns até ao osso. Diz-me que na cidade nada mudou. Que as pessoas andam tristes e bebem pouco. Hoje acha uma perfeita aberração ter perdido tanto tempo à volta de uma tese com 457 páginas. Ao mostrar-me as mãos sinto que a vida é passada em coisas que não precisam nada de nós. Amavelmente vêm três copos para a mesa. Deve andar pelos cinquenta anos. Os olhos são os mesmos quando fala da primeira vítima. O problema é que a sua incompetência fazia partir frequentemente as delicadas cordas. E isso significava, quase sempre, sangue. Quando o vi pela primeira vez pensei que não precisava de usar o gravador. Tinha-o ali para quando quisesse. Senti que também ele gostava daquilo. Não penses que o classifiquei logo. Fomos ficando amigos e fez-se na minha casa. Perdi, cientificamente, a distância necessária. Atende clientes numa sapataria na baixa e quando o dinheiro ajuda dá um salto à quinta de um amigo que tem gosto em dizer-se vitimado. Regresso ao aeroporto.