quarta-feira, dezembro 21, 2005

GESTÃO DO CONHECIMENTO



1.
Seria hoje classificado como uma criança monocular. Do seu universo faziam parte poucas cores. A cinza no castanho era um branco já pouco branco e o resto não merece por agora referência. Falava com a floresta e como a montanha. As árvores, as pedras, o musgo, as flores, os bichos, sobretudo os pequeninos [o caracol, o de conta, por vezes uma outra centopeia] mostravam sempre uma especial atenção pela sua presença. Era carne não rocha. Fazia PIBs e VABs com todos eles. Regressava a casa a pé, por vezes ao colo da mula que o pai, homem simples da vila, comprara a um cigano espanhol na Feira de Monchique, dizendo: -------------. Contemplava serenamente os magníficos vales e rapidamente entrava nas curvas de oferta e procura. Aplicava-as à produção de amêndoas e de amigos. Uma belíssima colecção de ábacos, oferecidos pela mãe, com diferentes tamanhos e organizados por cores, ficou para sempre associada à sua adolescência. Foi num deles que partiu a cabeça. O rasgo marcou-lhe o sorriso. Ainda hoje lhe dói quando sorri. Na altura conseguiu que retirassem de casa todos os espelhos.



2.
Dizem que teve a sorte que outros meninos nunca tiveram. Aos seis anos o pai comprou-lhe uma avestruz. Avestruzava e avestruzava na quinta da família em Sintra. Adorava o domínio que detinha sobre os animais. A tia-avó, uma vez, terça-feira, leu-lhe até sábado as obras completas de Aquilino e Eça. Sentiu-se humanista. O pai pagou-lhe todas as viagens que fez para fora do país. Na altura tinha 27 anos. Juntava os amigos à tardinha, junto ao rio Jacinto, e terminava a conversa sempre com a importância do normal funcionamento das relações EU-MIM-EU. No Natal de 48 recebeu um belíssimo conjunto de navalhas persas. Nesse tempo a rapidez dos seus lançamentos ficou reconhecida por todos. Uma vez, ao que se conta, navalhou duas vezes um pobre porco-da-índia. No grunhido, não contente, dizem, repetiu. Costumava correr de manhã à procura da imagem que o tinha feito acordar na véspera. Hoje não consegue dormir sossegado.