segunda-feira, dezembro 19, 2005

FALAR

O Carlos pediu-me para falarmos um pouco. Percebi que seria eu a falar com ele. Eu estava no sitio do costume. Ele tinha chegado de Abijan na véspera. Levou consigo o habitual. Talvez não tanta roupa quanto a necessidade da profissão o obrigaria a fazer. Pensei que fosse sobre as roupas. Pensei que fosse sobre o tempo ou as pessoas. Fazia coisas pelos outros. Neste caso o que procurou foi ensinar como se limpava um peru. No fim da nossa conversa apanhei o eléctrico e imaginei as ruas desertas cheias de zebras. Pragmático, não menos austero, e por vezes docemente preocupado com a vida dos outros, encontrou no corte da carne a sua própria forma de se sentir útil. Nunca o conheci de outra forma. Sei que ainda guarda numa caixinha branca a bala que quis o pai num fim de tarde em Angola. Gostava das coisas sem rumos definidos. Como alguém que desvia, depois do tiro, a mira do sitio certo. Gostava de ir, como se indo fosse a melhor forma de manter-se vivo. Sobre as formas dizia, tantas vezes, que o esforço dos vivos passava sempre por ordenar quadrados, linhas e pontos onde cada um se sentisse mais satisfeito que os outros. Nessa limpeza as mãos sabiam por si o que fazer. Não falava quase nada. Queria que os outros olhassem. Que construíssem os seus pontos. Que os mexessem em linhas. Homem alto e magro. Fazia o que tinha a fazer. Seco. Primeiro ofereceu-me um tipo de madeira a olhar um bicho sentado. Obrigado. Depois, diz lá coisas. Quando falava os braços continuavam sobre a mesa. As mãos não agarravam nada. As mãos fechadas em nada. Ouvi-o como quem merece esse instante por tudo o que os nossos olhos ainda são. Pensei para trás e vejo-te a apanhar cágados na ribeira da casa dos animais. Perna a perna. Limpei o sujo e tudo à volta. As árvores, o frio, as madeiras e as pedras. O tipo que passava de bicicleta. A bicicleta e a mão. O aceno. Voltando a Abijan senti que ainda querias voar. Pedimos a conta e saímos.