sexta-feira, novembro 25, 2005

DESEMPENHO

Sexta-Feira. Lisboa. 9:00. Uma sala de reuniões no 7º piso. Uma mesa em forma oval. Seis cadeiras. Duas estão ocupadas. Espera-se que cheguem dois cafés. Um montinho de folhas A4 no topo da mesa. Sem cinzeiros. Uma das paredes da sala tem um cartaz sobre Aprendizagem ao Longo da Vida. Dois Homens. Chove lá fora.

Homem Chefia: Bom, tive a analisar o que me enviou e temos que fazer aqui umas mudanças nisto.

Homem Não Chefia: Mas, o que é que achou do trabalho?

Homem Chefia: Está bom, genericamente está bom. Há por aqui meia dúzia de coisas em que não temos que ser tão específicos. Sobretudo na parte sobre as propostas a desenvolver no futuro.

Homem Não Chefia: Em que sentido?

Homem Chefia: Basta por exemplo dizer “a meta será atingir os 35% no período X”. Apenas grandes ideias. Se for preciso depois um maior detalhe, eles que digam! Eles também têm que fazer alguma coisa, não acha?

Homem Não Chefia: Estou a perceber. Mas assim isto é muito parecido ao que fizemos o ano passado!

Homem Chefia: Está preocupado? Isso já não é consigo! Sabe, quanto maior o detalhe, maior o espalhanço! Não acha?

Homem Não Chefia: Sim, mas…

Homem Chefia: Tenha calma, homem! Diga-me, já acabou aquela coisa que lhe tinha pedido a semana passada? … E já agora, ponha-me uma capa bonita nisto! E fixe isto: na empresa do meu tio não entrava que soubesse mais, mas quem tivesse feito melhor!


Nessa noite, em casa, o Homem Não Chefia matou a mulher e os seus dois filhos. Deixou uma carta em cima da 3ª cadeira da sala de reuniões. Segundo o Homem Chefia a carta não apresentava nenhum detalhe suficientemente pertinente para ser divulgada publicamente.