quarta-feira, maio 25, 2005

Critica da Razão Cínica ou em linguagem folk “chegou o momento de”


Malevitch, Black Square

Existe em nós – os aviadores - uma tendência para pensar que temos um conjunto de capacidades dificilmente encontradas no resto da população. Sem existência nos outros. A mais importante é a pausa. Permite duas coisas que nos satisfazem: a ideia de movimento e a ideia de continuo. Por isso a pausa trabalha uma coisa interessante: o imediatamente antes. Do que foi e do que será. Ou seja, também o imediatamente depois. Omite assim, o é. Porque a pausa é a nossa forma de capturar isso mesmo: o é, o agora, o isto. Imaginem as nossas viagens aéreas sem accionarmos as nossas pausas. Percebo agora que esta capacidade - ao contrario do que eu e os meus colegas pensam – também é detida por não aviadores. Mas ao contrário de nós, os não aviadores não têm nenhum sinal de pilotagem automática. Mas é por pensarem que o possuem e o controlam, que manifestam em nós o seu cinismo. Ser um bom cínico é pior do que ser um mau mentiroso. O “agora ou nunca” e os correspondentes “pacotes de medidas especiais” só revelam isso: como se fosse possível pausar o falso movimento do país. No acto da pausa, meter em nós um chip (pois tecnológico, pois inovador) e pensar que aí, nesse imediatamente antes para um imediatamente depois, o liquido de 2 % a mais de IVA possa, cinicamente, retomar o contínuo da nossa vida com a do país. Neste caso, como em tantos outros, os cínicos têm uma competência estranha: assumem a mesma categoria do olhar e do ver. Neles, está presente o legado da sinonímia. Mentem: porque o “chegou o momento de” não significa uma pausa (olhar). Porque no nosso país [e estou neste momento a sobrevoar a região de Benavente] essa pausa tem sido um estado de continuidade absoluta (ver). E as causas, aos olhos cínicos, nunca encontram os seus objectos.