terça-feira, maio 24, 2005

AUTOPIA

Sou pai de três filhos. Três, quatro e seis anos. Julgo que a maioria de nós apresenta hoje um estado semelhante à imagem do célebre quadro de Munch - o grito. Nesta aparente descida sem fim, na qual todos os diagnósticos sobre o nosso país nos parecem conduzir - suavemente ou não -, dei de caras com a “coisa”. A ela voltarei. Começo com o grande discurso, manifestamente público, dos últimos tempos: homens que se sexualizam em meninos, meninas atiradas a rios e a animais, mortes que são consideradas mais mortes do que outras, papeis assinados em tempo (in) útil, a eterna invisibilidade do deficit, a chuva que só cai noutro sítio, os fogos que aparecem sem convite, a vida dos deputados medida em anos, a segurança social e o seu prazo de validade, o travão na despesa, o acelerador nas exportações, o excesso de consumo e endividamento, a tecnologia que não existe, a inovação sem mudança, a qualificação sem valor acrescentado, a eterna formação longe do real, o aumento do desemprego, o empresário que (se) fecha deslocalizando-nos, a descoberta do envelhecimento, as (re) definições e significados de “centro, esquerda e direita”. Enfim, a nossa vida e história recente têm sido, sem grandes desvios, um pouco de tudo isto. Com 5, 6 ou 8 %. Pouco importa. Ora, pensemos o seguinte: porque razão, quando estamos fora dos contextos de decisão (do governo ao treinador de futebol) construímos e sabemos soluções para os problemas e quando temos essa possibilidade – o estar dentro do contexto e ser decisor – deixamos de saber, ou se quiserem, deixamos de agir? Todos nós o observamos: quando não se está, sabe-se; quando se está, não se sabe. Assim vai sendo o nosso modo de viver… Ou seja, a competência parece estar fora e a incompetência vive no dentro! Mas constatamos algo, aparentemente, mais interessante: o ser competente não depende dos actores, mas antes do estar dentro ou fora de. No pupito da nossa governação e salvas raras excepções, os actores têm sido quase sempre os mesmos. Exercício cíclico onde as respostas passam quase sempre pelas expressões é o sistema.É o poder. E aqui, pouco importa saber se os actores são de direita, de esquerda, do centro, do todo, de várias partes ou de parte incerta. Essa “coisa” vive em todos. Encontrou-me. Dito de outra maneira, a sua sobre vivência é independente do locus politico do actor. E se assim é, essa “coisa” tem que remeter necessariamente para uma dimensão apolítica. Avancemos duas simples hipóteses: a nossa ausência em ouvir e cooperar. Ouvimos pouco e mal. Quando estamos dentro não ouvimos de todo. Fora, fazemos tudo para ser ouvidos. Quando estamos dentro cooperamos no silêncio. Fora, cooperamos para que nos oiçam. Ausência em ouvir e cooperar entre o estar fora e o estar dentro. Até porque sem o ouvir dificilmente conseguimos cooperar em alguma situação. Vem nos livros. Vem das pessoas. Como todos compreendemos, o problema é essencialmente de fronteira. Dois simples exemplos desse discurso: no macro, aproximar as políticas das necessidades reais do país, no micro, aproximar p.e., a universidade da empresa. Ou a primeria da última. Para bom português, falar de fronteira neste contexto tem um único sentido: barreira. Qual o custo da sua remoção nas práticas que tem estabelecido entre o dentro e o fora? Porventura, bastante inferior aos custos dos resultados que tem alcançado no meu país! Por fim, como pensar a Europa tão longe que estamos de pensar sobre Portugal? Outra vez um problema de fronteira. Sempre o “nós” e os “outros”…O meu filho do meio adora espelhos.