terça-feira, fevereiro 15, 2005

O NOSSO DIA

A ideia de estar em frente ao Automat (1927) de Edward Hopper, pouco pode revelar sobre a nossa incompetência. Os nossos amigos continuam a prestar um serviço de amizade. O sábado é quase sempre um dia de esplanada e jornal. Os almoços, na semana, nunca conseguem dizer mais do que foi a manhã ou o dia de ontem. Conversamos através das perguntas da semana passada. Sabemos que ele mudou de emprego. Uma outra rua. Um outro percurso. Uma tentativa desesperada de continuar a manter a mentira. Com será manter uma coisa que não existe? A rapariga de Hopper não bebe um café. Não está sentada. Nem aquilo que percepciono como um aquecedor poderá alguma vez aquecer o que seja. Não é, por mais que digam que sim, a minha amiga Joana. Soube, passados quase 30 anos, que Hopper decidiu que aquela rapariga só podia ser olhada por uma pessoa de cada vez, sempre ao nascer do dia e de preferência com as mãos atadas. A Joana dá-me um beijo.